Não há registro de fomes coletivas em países com democracia e jornalismo investigativo, destacam especialistas em evento em SP
Fonte PNUD Brasil– A liberdade de imprensa é um fator essencial para o desenvolvimento humano, defenderam especialistas reunidos nesta segunda-feira no Seminário Internacional sobre Jornalismo Investigativo: Um Diálogo Sul-Sul, em São Paulo. Ao denunciar problemas de governança, crimes contra minorias, abuso de poder econômico ou degradação ambiental, a mídia contribui para a melhoria da vida das pessoas, destacaram os palestrantes.
“Uma imprensa livre, responsável, tem muita capacidade de enriquecer o debate nacional e os debates setoriais, de apontar problemas e boas práticas”, afirmou o coordenador da ONU e representante do PNUD no Brasil, Jorge Chediek, um dos participantes da mesa de abertura do evento.
Chediek fez menção ao conceito adotado por teóricos como Amartya Sen, segundo os quais o desenvolvimento é mais do que crescimento econômico ou ganhos materiais — está ligado à liberdade das pessoas. Sob esse ponto de vista, desenvolvimento, democracia e liberdade de imprensa estão intimamente relacionados.
Amartya Sen foi mencionado várias vezes no evento. Uma das informações feitas pelo economista indiano em seu livro mais famoso, Desenvolvimento como Liberdade, pontuou diversos momentos: “Nunca uma fome coletiva se materializou em um país que fosse independente, que tivesse eleições regularmente, partidos de oposição para expressar críticas e que permitisse aos jornais noticiar livremente e questionar a sabedoria das políticas governamentais sem ampla censura”.
“Há uma clara ligação entre jornalismo e democracia, e também entre jornalismo e desenvolvimento”, ecoou Patrice Schneider, do Media Development Loan Fund. Ele citou também um estudo do Banco Mundial segundo o qual a transparência e a prestação de contas ajudam o crescimento econômico.
“O jornalismo investigativo é fundamental para uma sociedade mais transparente”, complementou a chefe da Procuradoria Regional da República na 3ª Região, Luiza Frischeisen, também presente na mesa inicial de debates. Ela destacou que jornalismo investigativo não está ligado apenas à apuração de casos de corrupção, mas também de crimes contra mulheres, crianças, homossexuais e outros grupos vulneráveis, contra o meio ambiente e grupos econômicos. “Mas essa liberdade tem como contrapartida a responsabilidade pelo que se está publicando, o que não quer dizer censura”.
E a censura, como sublinharam alguns palestrantes, não está apenas ligada a ação de alguns governos. Os anunciantes, a própria empresa de comunicação e lobbies de diversos tipos também podem significar ameaças. A jornalista mexicana Sanjuana Martinez, do diário La Jornada, detalhou, por exemplo, o que batizou de “narcocensura”: a intimidação feita pelos traficantes, que sequestram e matam jornalistas no país. “A violência dos cartéis de drogas impõe uma lei do silêncio. Porque muitas vezes silenciar é requisito para sobreviver”, declarou.
Mas os constrangimentos à investigação jornalística estão presentes mesmo em países de alto desenvolvimento humano. Lukas Hässig, jornalista free-lancer da Suíça, expôs as dificuldades que enfrentou para apurar e divulgar as investigações sobre os problemas financeiros do UBS, um dos maiores bancos do mundo, com sede em Zurique. “Nenhum grande jornal suíço investigou as falhas no UBS”, disse Hässig. Ligações entre pessoas com cargos importantes no banco e na imprensa local impediram que o assunto fosse amplamente abordado, segundo ele.


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